Oi tudo,
Hoje gostaria apenas de compartilhar com vocês um excelente artigo de Christian Guellerin, presidente da associação Cumulus.
Christian analisa o design, mas especialmente neste artigo sobre o que as empresas francesas poderiam tornar-se, se desenvolvêssemos o lado manual que os nossos filhos têm desde o nascimento.
O CÍRCULO. E se a reabilitação do “trabalho manual” fosse uma resposta aos problemas industriais das economias ocidentais que estão a ver as suas fábricas afastarem-se cada vez mais? E se a educação em design tivesse um papel decisivo a desempenhar nesta empreitada? É preciso reaprender a fazer as coisas “com as mãos”, é sobre “a solidez e a realidade do mundo”.
Numa altura em que surgem problemas de competitividade empresarial, em que economistas e políticos criam constantemente ministérios, comissões ou comités de “recuperação” para tentar tirar os países ocidentais de crises sucessivas e encontrar modelos de crescimento industrial, será incongruente falar da reabilitação do “trabalho manual” como resposta – ainda que modesta – ao declínio das indústrias ocidentais?
Não é de admirar que as crianças desenhem na escola, trabalhem com papel, cartão e outros materiais, façam objectos diversos, joguem Lego ou Meccano e depois, mais tarde, façam maquetes ou arrumem os seus quartos, que uma vez no ensino superior só se dediquem a supostamente tarefas intelectuais, como se o reconhecimento intelectual fosse uma virtude e o facto de “meter a mão” fosse irrisório, até degradante? Não é de admirar que em França, em particular, os melhores estudantes que se formam em áreas científicas abandonem definitivamente a cultura tecnológica e todos os aspectos do design e fabrico de produtos assim que acedem às melhores escolas de negócios? Será de admirar – como recordou recentemente o chefe de Schneider – que as melhores escolas de engenharia já não produzam engenheiros e que os residentes da região Central prefiram salas de negociação financeiras em Londres ou Frankfurt às fábricas?
A organização científica do trabalho, desde a revolução industrial de meados do século XIX, continuou a separar o trabalho intelectual, confiado às “elites”, e o trabalho manual, confiado aos trabalhadores. Taylor, a partir do final do século XIX, modela uma organização científica do trabalho (Gestão Científica) que leva a separar a gestão que pensa, que modela, que determina os procedimentos, que dita as regras de um “trabalho bem executado” dos trabalhadores que são cada vez menos qualificados porque se limitam apenas a aplicar procedimentos e já não pensam. É neste momento que nasce o design, como que para compensar esta “desumanidade” de separar o corpo da sua mente.
Esta organização conduz obviamente ao desaparecimento do trabalhador qualificado, daquele que pensa, daquele que liga a reflexão ao trabalho manual, em favor de um trabalhador cada vez menos qualificado. Devemos lembrar de Charlot em “Les Temps Modernes” que, assim que pensa, é “comido” pela máquina ou reler “325 Francs” de Roger Vaillant para saber que “pensar” leva o trabalhador ao seu prejuízo. Busard, o herói de Vaillant, com o braço esmagado pela imprensa que controla, também é comido pela máquina.
Esta organização científica da empresa tem uma virtude económica, a de pagar menos aos trabalhadores menos qualificados. Mas o problema é que outros países emergentes pagam ainda menos aos trabalhadores e distorcem as condições de concorrência. E a empresa já não conta com esse estrato de trabalhadores qualificados que são os primeiros retransmissores da criação e da inovação, aqueles que fazem a ligação entre a estratégia industrial e a “prática”. Precisamos ir mais longe para compreender o declínio da indústria nos países ocidentais?
O trabalho recente realizado por estas mesmas empresas em torno dos padrões de qualidade vai ao encontro – talvez involuntariamente – do mesmo objectivo. Implementar procedimentos – e ter de os aplicar, que é o mínimo que podemos fazer – dificulta a possibilidade de quem os aplica ter de pensar. Da mesma forma que prejudicam as estruturas na sua capacidade de inovar. Criar, inovar, para os fanáticos pela Qualidade, é fugir da norma e contrariar o interesse da empresa. A política de normalização permitiu certamente que certas empresas se estruturassem, mas levou outras à falência devido à sua incapacidade de reformar os modelos implementados e de inovar.
A “recuperação produtiva” das empresas industriais ocidentais talvez envolva tomar “as coisas sob controle”. Trata-se de requalificar o pessoal e reabilitar a virtude da congruência entre a mente e a capacidade de construir, desenhar, montar, desmontar-se. Trata-se de reabilitar a capacidade individual de cada um de fazer coisas com as mãos, de ser o primeiro a implementar a inovação e a dar-lhe sentido. É por isso que a empresa precisa de designers, porque além das ideias criativas, eles criam coisas!
“A mão é espírito” nos ensinam os Companheiros, é uma questão de lembrar isto para conciliar a cabeça, a ideia, e o fazer, a ação. Nenhum seminário de “design thinking” jamais modificou ou desenvolveu uma atividade ou, mais genericamente, uma empresa, nem gerou o menor valor agregado. Somente aqueles que “resolvem o problema com as próprias mãos” podem avançar. É por isso que o “design thinking” precisa de designers. Nenhum “post-it” na parede produziu alguma coisa.
Se eu fosse um “político” encarregado do desenvolvimento industrial, faria questão de reabilitar os cursos de tecnologia e trabalho manual na escola. Eu os chamaria de “cursos de design e inovação” para tirar o pó da sua imagem e reconhecer a qualidade dos seus professores dedicados e pouco reconhecidos.
E afirmaria a responsabilidade das escolas de design em conciliar “fazer” e “fazer”, condição para um empreendedorismo eficiente, condição para a reindustrialização dos nossos territórios.
E se tudo começasse com a reabilitação do “trabalho manual”.